O Inventário do Pêndulo
As marcas que o silêncio deixou
João Milton ancora-se na cadeira de vime; a cada balanço, a madeira range, um suspiro compassado que marca o ritmo do pêndulo do tempo. As lembranças surgem sem convite, turvas e fugidias como nuvens sob a luz crua do meio-dia. Ele perscruta a própria existência, um inventário que todo homem deve erguer antes que a memória se apague ou o corpo ceda. Testemunhar a vida exige olhar para a alegria e para o luto, peças de um mosaico que rodopia, insistente, revelando o que foi e o que a correnteza levou.
Tenta decifrar o passado para encontrar a paz no presente. Reconhece os equívocos, a confissão amarga, a imprudência, a falta de recato em momentos que exigiam o silêncio protetor. A palavra proferida é uma ferida que não cicatriza; fere com mais crueldade que o golpe físico. Rasga laços, separa almas com o fio de uma lâmina, deixando apenas o rastro do desprezo. Essas sombras o cercam, por mais que a indignação e o tempo tentem dissipá-las. Sente a sede de narrar o que viveu, o calor das amizades que aqueceram sua alma e a marca das dores que vincam seu rosto, a meia-lua roxa que repousa sob seus olhos. Esta lucidez amadureceu apenas quando se afastou do turbilhão dos dias, da urgência do ofício e do medo constante da escassez. No crepúsculo da existência, habita o hiato entre o findar da luz e o despertar incerto, cercado por vultos, rostos amigos e sonhos que o caminho, voraz, devorou.
Aceita, com a serenidade que a idade impõe, que muitos planos feneceram por falta de engenho. Aprendeu, a duras penas, que afeto, compreensão e perdão guardam a natureza do óleo e da água: habitam o mesmo frasco, mas jamais se fundem. Buscou o indulto no brilho dos olhos alheios, ansiou pela prosperidade comum, mas o castelo de cartas ruiu. Laços se desfizeram; o tempo, correnteza de rio sob a ponte, jamais retorna à fonte.
Entre as sombras, a culpa insiste. Na varanda, na gangorra do tempo, a mágoa ancora-se em dois nomes: Arlete e Pedro. Pedro, rapaz de alma retraída, possuía uma humildade vasta. O acanhamento era sua presença; observava o mundo de um canto, analista mudo, atento. Cabelos negros e cacheados, envolvia os fios com o indicador da mão direita num tique de inquietação contida. Raro sorriso. Possuía uma sabedoria oriental: ouvia a todos e, com voz macia, emitia opiniões que o grupo recebia com reverência. Quando surgiu a ideia do time de futsal, embora sem habilidade esportiva, Pedro organizou tudo. Sistemático, articulou a arrecadação, adquiriu uniformes, montou a agenda e cuidou da equipe como um técnico devoto. Era o alicerce respeitado da vila.
Arlete trazia o sol no olhar. Quando se cruzavam, os olhos de ambos cintilavam como astros em noite limpa — polos opostos atraídos por uma força invisível. Ela era a antítese de Pedro: expansiva, alegre, disposta, habituada ao desabrochar das festas e bailes da juventude.
João Milton assistia em silêncio, um cupido inquieto, crente de que ali jazia um jardim pronto para florir. Sentia a química, a intenção retraída que precisava apenas de um movimento para unir o casal. Mas o acanhamento de Pedro estagnava o destino.
No baile de formatura, entre ternos e vestidos longos, um fato abalou o alicerce da amizade. A memória de João falha ao tentar buscar o motivo, mas Pedro não compareceu. Arlete contara às amigas que dançaria a valsa com ele, selando o início de um namoro, o presente esperado daquela graduação.
O baile atravessava a madrugada. Entre os jovens, Richard destacava-se: alto, olhos azuis, postura de atleta. O conquistador da turma, cujo mantra era nunca sair de uma festa sem uma conquista. Charlatão, colecionava beijos para alimentar o ego. Ao notar a fragilidade de Arlete pela ausência de Pedro, Richard partiu para a ofensiva. Ela, embriagada pela formatura e pela decepção, aceitou o convite. Dançaram várias melodias. João Milton observava, certo de que ela buscava o ciúme de Pedro. Ao final da valsa, Richard segurou-lhe o rosto e beijou-a longamente, exibindo-se aos amigos como quem domina um território.
João Milton sentiu revolta. Richard não podia agir assim, ciente do afeto latente entre os dois. Quis confrontá-lo, mas, para evitar um escândalo no baile, calou-se. Prometeu a si mesmo uma conversa noutro dia.
No sábado seguinte, Pedro indagou sobre a festa. João Milton, resistente, narrou apenas que Arlete e Richard dançaram a valsa. Pedro, amargurado, foi confrontar Arlete assim que ela chegou, acompanhada pelo próprio Richard.
— Estão juntos? — interrogou Pedro, com a voz alterada.
Arlete negou, confusa. Richard sorriu, desdenhoso. Pedro, pressionado a revelar a fonte, apontou: — Foi o João Milton.
O semblante de Arlete transformou-se em ódio. Seus olhos, antes sol, tornaram-se chumbo. O desprezo transbordou em ofensas que queimavam a pele de João Milton: "Fofoqueiro", "mariquinha", "X9", "mentiroso". Richard, aproveitando o momento, avançou com a fúria do boxeador e desferiu um murro no nariz de João.
O sangue escorria, quente, manchando a camisa alva — uma mancha viva que se fixou para sempre em sua consciência. Abismado, João Milton permaneceu estático. Enquanto estancou o fluxo rubro com as mãos trêmulas, a dor do impacto físico era ínfima diante do estrondo daquelas palavras. Os insultos ecoavam como aço contra sua alma. Os amigos chegaram, apartaram a briga, mas o estrago estava feito. Ele retirou-se em silêncio, deixando para trás os restos de sua juventude e a honra que lhe fora arrancada em público.
Afastou-se da malta, o orgulho inibindo qualquer reconciliação. O tempo dispersou a todos. A ironia cumpriu seu papel: anos depois, Pedro e Arlete casaram-se, seguiram para o litoral e nunca mais voltaram. João Milton soube da união com alegria e amargor. Suas palavras, rudes e impensadas, foram o cinzel que esculpiu aquele destino. O estigma da indiscrição gravou-se com ferro quente em sua memória.
"Hoje, o silêncio é a única companhia que habita a casa. Ambos partiram, deixando-me como o sobrevivente de um segredo, de uma briga, de uma intriga que, ironicamente, serviu de alicerce para o destino que os uniu. Sinto a marca da covardia em mim, uma cicatriz que não dói mais, mas que me recorda diariamente de quem fui. Consola-me, em parte, o saber que minha voz — ainda que desastrosa — foi o gatilho involuntário para o amor que os manteve juntos até o fim. Agora, resta-me apenas a poeira das lembranças, o brilho pálido de um tempo que não retorna e a serenidade de quem, finalmente, compreendeu que o perdão não é a cura para a ferida, mas a paz que se encontra quando, exausto, paramos de lutar contra o que a vida, soberana, decidiu por nós."


Porra... segunda vez que choro hoje! Será que tô grávida?
Antes de saber, vou tomar um porre, pra não ficar com dor na consciência!
Quero ir lá ajudar João a levantar, dizer: não carrega a culpa: fica com o sorriso de ter feito um amor dar certo!
Muito lindo! É assim para todos nós envelhecendo. A diferença está
unicamente como expressamos o Tempo que passa!