O Fôlego do Século
A memoria que corre nas pernas

Participar da São Silvestre em 1983, sob o sereno da meia-noite entre apenas mil heróis, e agora cruzar a linha de chegada no centenário da prova, representa a consagração do espírito amador. No último dia de 2025, o asfalto de São Paulo estremeceu sob o passo de cinquenta e cinco mil inscritos e uma legião de dez mil "pipocas" em busca de um lugar na história. Como paulistano nato, forjado no cinza e no concreto desta metrópole, jamais admitiria a ausência nesta efeméride. Vi a cidade que ignora o repouso silenciar o próprio ruído para que os atletas passassem, transbordando a alegria que o esporte esculpe no peito.
Esta aventura teve início seis meses antes, com o rito da inscrição no portal oficial. O silêncio da organização trazia angústia até que, em outubro, as comportas se abriram. Uma avalanche de cento e cinquenta mil pretendentes tentou o acesso em um átimo, mas o limite era de apenas cinquenta mil. O suporte tecnológico ruiu sob o peso de tamanha sede; o sistema travou, caiu e agonizou sob a demanda mal dimensionada. O veredito surgiu gélido na tela: "Inscrições preenchidas". A frustração pesou como chumbo até o instante da minha "Eureca": o fator humano. Lembrei-me de Dimas, companheiro de triathlon e voz respeitada na associação dos corredores. Disquei seu número e narrei meu drama. A resposta veio com a firmeza de quem conhece as trilhas: "Deixe comigo, vou lhe arrumar suas inscrições". O retorno trouxe o alento: ele obteve duas vagas via associação — para mim e para meu sobrinho, Ricardo. A confirmação chegou como um troféu antecipado. Ricardo e eu seríamos parte do século.
A prova que enfrentamos é o espelho das mutações desta terra. Em 1924, o jornalista Cásper Líbero deu vida ao mito com parcos sessenta inscritos e um trajeto de 8,8 quilômetros. O contingente saltou para centenas após a internacionalização de 1945, época em que o percurso encurtou para 7 quilômetros. O marco de maior brilho e justiça ocorreu em 1975, o Ano Internacional da Mulher, quando a prova rompeu o cerco do preconceito e permitiu a participação feminina oficial. A alemã Christa Vahlensieck venceu os 8,9 quilômetros daquela edição, abrindo caminho para a força das mulheres. No centenário de 2025, o asfalto celebrou um recorde: elas somaram 47% dos inscritos, quase vinte e seis mil atletas em uma ocupação histórica das ruas. Somente em 1991, a distância atingiu a padronização de 15 quilômetros, consolidando o desafio que tem na Subida da Brigadeiro Luís Antônio o seu calvário final.
No dia da prova estava claro e ensolarado, sem uma nuvem no céu. Como se o conceito de nuvens nem sequer existisse. A organização dividiu a multidão em cinco ondas para dispersar a aglomeração. A dinâmica foi cruel com os amadores: enquanto o pelotão de elite partiu às oito horas, minha onda, a última, rompeu a inércia apenas às nove e trinta da manhã. Naquele instante, os relógios da Avenida Paulista já marcavam vinte e oito graus. O contraste era absoluto: o corredor africano que venceu, saindo no pelotão da elite do atletismo às oito horas, completou o trajeto em parcos quarenta e quatro minutos; o recorde oficial da prova de 15km (estabelecido em 1995 pelo queniano Paul Tergat) é de 43min12s. O vencedor de 2025 correu no ritmo das lendas! Enquanto o vencedor recebia sua premiação e buscava o repouso no hotel, nós iniciávamos o combate contra o asfalto quente.
Narrar o percurso exige o olhar de quem colheu cada detalhe. Nas ruas, a simplicidade e a humildade reinam. Existe um respeito mútuo; atletas amadores buscam o deleite do esforço e agradecem pela saúde. O cenário exibe um desfile de ícones: as capas vermelhas do Super Homem e do Capitão América tremulam ao vento, o boné do Chaves e as máscaras do Batman dividem o fôlego com palhaços de sorrisos pintados. Mulheres personificam ovelhinhas, bailarinas em seus tutus de tule ou a força da Mulher Maravilha, transitando com paz, livres de assédio. Camisas de todos os clubes de futebol flutuam no mar de gente, sem hostilidades.
Na mítica subida da Brigadeiro, a três mil metros da glória, a vitalidade pregou suas peças sob um sol de trinta graus. Aos meus sessenta e oito anos, abria caminho entre jovens com um aviso: "Licença, sessenta mais tem preferência". O riso ecoava e a mocidade cedia passagem com admiração. Instantes depois, um veterano de sete décadas ultrapassou-me com o mesmo bordão: "Dê licença que um 'setenta mais' tem preferência". Respondi sob o brilho do humor: "O senhor é uma realidade, eu sou uma possibilidade".
Terminamos a competição exaustos, suados, mas realizados. O objetivo de vencer o centenário foi cumprido. Com as medalhas reluzentes sobre o corpo, celebramos a vitória do fôlego sobre o tempo. Todavia, o vírus da corrida não admite repouso. O horizonte agora aponta para o dia primeiro de maio, no Autódromo de Interlagos. Lá, os roncos dos motores darão lugar ao compasso dos pés no Ayrton Senna Racing Day. Esta data carrega um peso sagrado: comemoraremos os trinta e cinco anos da primeira vitória de Senna em Interlagos, mas também recordaremos o dia em que o Brasil silenciou em 1994. O piloto, que partiu tragicamente aos trinta e quatro anos em Ímola, deixou um rastro de coragem que ainda nos faz correr, torcer e chorar em uníssono. Seu legado será o combustível para cada quilômetro em Interlagos, inspirando-nos a transformar a saudade em superação.


Uma vez samurai, para sempre samurai!
Meus parabéns pelas vitórias comquistadas.
Muito obrigado pela leitura e comentário.
Enviei para um amigo que correu durante muitos anos na São Silvestre. Muito bom saber a história da corrida. Obrigado.