Antes da Chuva
O silêncio entre dois corpos
Um SMS informava — Alerta Severo. Defesa Civil: chuva forte se espalhando por toda a cidade, com raios, vento, granizo, desmoronamentos, queda de árvores e corte de energia. Atinge também todas as áreas vizinhas. Busque abrigo. A mensagem foi enviada para todos os meios de comunicação, para a população que sabia ser uma situação temporária — eram as tradicionais chuvas fortes de verão.
A tempestade, quando chegava, chegava torrencial e arrasadora, deixando estragos que demandavam semanas de reparos: inundações, desmoronamentos, quedas de árvores, corte de energia que, dependendo da região, nos subúrbios afastados, mantinha as pessoas isoladas por dias e dias, sem comunicação, sem eletricidade. No último verão, foram dez dias no breu. Várias árvores caíram, cortando a fiação; os operários trabalharam na limpeza das vias e na instalação de novas fiações para o restabelecimento da energia. O trabalho de recuperação afetou a localidade das casas da tranquila rua arborizada em que Samuel e Maya moravam há três anos, distante do centro da cidade, próxima de um centro comercial e de um ponto de transporte público.
— É importante que eles tenham avisado — Maya admitiu depois de ler a mensagem do alerta severo em voz alta, mais para si do que para Samuel. Deixou sua bolsa no hall da casa e entrou na cozinha. Usava uma capa de chuva. Tinha uma aparência do tipo de mulher que um dia havia jurado nunca ter mais de trinta e cinco anos. Estava voltando do trabalho. Trazia uma maquiagem leve, batom cor de morango com brilho que ressaltava os lábios carnudos. Ela jogou as correspondências em cima da mesa sem olhar, segurando o celular com atenção ao comunicado da Defesa Civil.
— Mas eles deveriam fazer o trabalho durante o dia e não nos deixar, como da última vez, dez dias na escuridão. Tem bairros que ficaram vinte dias sem eletricidade. Imagine o prejuízo: os alimentos da geladeira estragaram, sem televisão, rádio, sem carregar os celulares, sem tomar banho.
— Quando eu estou em casa, é isso que você quer dizer — disse Samuel. Desligou o forno e retirou o ravióli que já estava no ponto. Fazia três anos que trabalhava em casa, prestando serviços sem nenhum vínculo empregatício — traduções de livros do inglês ou espanhol para o português, revisões e diagramações para algumas editoras —, e tentava terminar o seu livro de ficção, que há cinco anos escrevia. — Quando eles começaram os consertos?
— O alerta severo da Defesa Civil é para as fortes chuvas que estão por chegar. O céu está carregado de nuvens pretas, relâmpagos clareiam o horizonte como flashes de máquina fotográfica. Como você diz, Samuel, sempre no seu tom irônico, São Pedro está tirando umas fotos da terra. — Maya foi até a tomada mais próxima e pôs o celular para carregar, porque não sabia a que horas cortaria a energia, quanto tempo ficaria no escuro e incomunicável. Seu smartphone tinha bateria interna; lembrou do primeiro aparelho, que vinha com um carregador capaz de alimentar quantas baterias houvesse. Com esse aparelho, era impossível.
— Então é hoje, ou melhor, daqui a pouco, e São Pedro está avisando — disse Samuel.
Ele passou as mãos pelos cabelos, ajeitando-os: havia dias que não saía de casa, não se penteava e andava de roupa de dormir, com uma palidez de enfermo. Quanto mais Samuel ficava em casa, enredado nos seus escritos, mais queria o isolamento. O silêncio era para ele uma forma de inspiração; mantinha rádio, televisão desligados, o celular no silencioso, recebia as chamadas em modo vibratório, lia mensagens ou notícias só após o almoço, depois da sesta — nem saía para tomar sol, pegar as correspondências, fazer compras no mercado. Detestava feiras livres de rua e o burburinho do comércio.
Seis meses antes, Samuel estava no lançamento de um livro para o qual havia feito a diagramação, a revisão e a capa — trabalho encomendado pela editora com que mantinha parceria — quando Maya teve uma síncope e foi encaminhada às pressas para o hospital. Como estava no início da gravidez, perdeu o filho. Ele não queria ir ao lançamento, mas ela insistiu: era importante para fazer contatos, pois ele lançaria o seu próprio livro em breve. Quando Maya saiu para o trabalho naquela manhã, despediu-se dando adeus com o braço pousado no pequeno volume da barriga — no botão de rosa que guarda a primavera inteira —, como se aquele gesto pertencesse ao seu corpo desde sempre, como se sempre houvesse sido três.
Toda vez que Samuel lembrava desse momento — a última hora em que vira Maya grávida, saindo para o trabalho, o braço recolhido sobre o ventre como se estivesse protegendo e acariciando o feto, sorrindo com a graça serena de ser mãe —, ele se imaginava ao volante enquanto Maya se virava para trás, olhando o filho dormindo na cadeirinha. Uma vez, essas imagens de paternidade haviam perturbado Samuel, irritavam-no e deixavam-no ansioso: ainda era um revisor aos quarenta anos, sem nenhuma perspectiva clara de futuro; o máximo que poderia fazer era dar aula de português, mas isso ele odiava — ficar repetindo as mesmas regras, ver alunos que estavam ali só para aprender o básico, sem nenhum interesse pela matéria. Naquela manhã de verão, porém, bem cedo, na janela do seu quarto, vendo a chuva cair regando a natureza, ele dera boas-vindas às imagens pela primeira vez.
Um funcionário da editora o havia encontrado entre as pessoas do evento e lhe entregara um papel dobrado. Era apenas um número de telefone, mas Samuel sabia que era do hospital. Quando voltou para casa, já estava tudo terminado. O feto estava morto. Maya repousava numa enfermaria do hospital que nunca havia visitado durante a gestação. No exame de ultrassom, detectou-se que o coração do bebê havia parado, e ela foi submetida a uma cesariana. O médico, com a frieza natural da profissão, explicou que essas coisas aconteciam, que ela estava bem — uma mulher jovem, saudável, que poderia tentar engravidar de novo sem nenhum problema. O seu sorriso foi o mais gentil possível para alguém que só o conhecia dentro de um hospital. Após alguns dias, Maya estava de volta às suas atividades. Nada indicava que não pudesse ter filhos no futuro.
Agora, sempre que Samuel despertava, Maya já havia saído para o trabalho. Abria os olhos, via os fios de cabelo preto dela que ficavam no travesseiro, e uma saudade batia fundo no peito — lembrança do tempo em que namoravam, do amor que tinham um pelo outro, da vontade contagiante de ficarem sempre juntos. Imaginava-a vestida com o terninho azul-marinho, camisa branca, lenço vermelho no pescoço, maquiada, tomando café no escritório onde era secretária executiva da diretoria. Tinha inveja dela por ter uma profissão, um trabalho fixo, tão diferente da natureza difusa e sem estabilidade da sua vida. Enquanto ele ficava deitado na cama até se entediar, olhando para o armário que Maya deixara entreaberto — a fileira dos paletós, das calças, das saias. Depois que o bebê faleceu, era tarde demais para voltar a dar aulas. Era início do ano, férias escolares; só poderia retornar à sala de aula em março, depois do carnaval. Tinha sessenta dias disponíveis para terminar o livro.
Mas nada impulsionava Samuel. Pensava em como Maya havia se tornado perita em evitá-lo dentro daquela casa de dois andares, passando o tempo em andares separados. Lembrou que havia muito não ficavam nos fins de semana na sala, conversando e assistindo a filmes. Quanto tempo não trocavam olhares, não sorriam, não sussurravam os nomes um do outro ao buscar o corpo do parceiro antes de dormir.
No começo, ele acreditava que aquilo iria passar, que como casal superariam aquela fase. Maya tinha apenas trinta anos. Era forte, saudável, poderia tentar engravidar outra vez. Mas esse pensamento não o consolava. Havia se tornado rotina sair da cama e descer para o café da manhã na hora do almoço, tomar o que Maya deixara na cafeteira em cima do fogão.
Samuel esquentou o café. Não tinha fome. Enquanto sorvia em golpes o café sem açúcar, os ponteiros do relógio marcavam treze horas. Ouvia a chuva cair sem parar, os relâmpagos que explodiam no céu. Abriu a porta da cozinha e, sentado à mesa, contemplou as águas se acumulando no quintal — o ralo não conseguia dar vazão ao aguaceiro que já formava uma piscina rasa. Na entrada, havia um muro de trinta centímetros, uma barragem tanto na cozinha como na sala, que impedia a água de invadir a casa. Na última tempestade, o nível subiu tanto que faltou pouco. Para evitar a inundação, Samuel precisara sair na chuva e desobstruir os ralos do quintal onde os resíduos se amontoavam. Durante uma semana, esse foi o pretexto para não sair de casa.
Maya chegou do trabalho às vinte horas. Naquela noite aconteceu uma terrível tempestade com chuva de açoites, estalos de trovões que rachavam o ar e relâmpagos que ofuscavam o céu inteiro. Samuel havia preparado o ravióli para jantarem juntos. A mesa posta, o vinho descansando — tudo pronto para que comessem no escuro à luz de velas. Maya chegou, olhou a mesa, sorriu e pediu que acendesse as velas. Soltou os cabelos presos e tirou os sapatos.
— Vou tomar banho — disse ela, subindo a escada. — Desço logo.
Samuel empurrou para um canto da sala a bolsa e os sapatos que ela havia deixado no meio do corredor, na entrada da cozinha. Ela não era assim. Quando chegava do trabalho, costumava pendurar a roupa num cabide e guardar os sapatos no armário. Agora parecia que a casa era um hotel. O fato de tudo estar fechado — portas, janelas — já não a incomodava. No sofá, repousava o rolo de lã. O fio se desfiava em um cansaço mudo, e a cor viva de outrora cedia à poeira do tempo como uma vela que se esquece de apagar. As agulhas, antes ágeis no feitio de um gorro para o bebê, jaziam inertes. Ela os havia abandonado.
Era típico de Maya preparar surpresas para si mesma, boas ou más. Se encontrava um vestido, uma saia, um sapato ou bolsa de que gostava, comprava duas ou mais unidades. Guardava uma parte do salário numa conta bancária só em seu nome. Isso não incomodava Samuel. A mãe dele havia desabado quando o pai faleceu, abandonando a casa onde moravam, deixando-o sozinho para providenciar tudo. Ele apreciava que Maya fosse diferente. Quando fazia as compras, entulhava a despensa com embalagens de alimentos. Na feira de sábado, circulava entre as barracas e comprava mais comida, arrastando carrinhos e sacolas até não caber mais nada. Não se importava com a quantidade de pessoas no seu caminho, aos empurrões, mesmo quando estava grávida. Ao retornar de carro, nas curvas ao longo do caminho, eles se deslumbravam com a fartura que haviam trazido.
Quando apareciam amigos, Maya preparava refeições que pareciam ter levado dias — coisas que havia congelado e embalado com antecedência, pratos de mestre de cozinha, receitas anotadas num caderno de capa desgastada. Agora tinham comido tudo; a despensa estava vazia. Ele folheava os cadernos dela todas as tardes, obedecendo às instruções anotadas. Cada receita carregava uma data, revelando a primeira vez que haviam comido juntos aquele prato. Ele não se lembrava de nenhum deles, mas lá estavam, grafados com a letra de Maya. Havia aprendido a cozinhar desde que era solteiro, quando ainda morava com a mãe. Era a única coisa que o fazia sentir produtivo. Sabia que, se não fosse ele preparar o jantar, Maya iria tomar um copo de leite ou uma tigela de cereais.
Naquela noite, sem luz, iam jantar juntos. Havia meses que se serviam no fogão — ele levava o prato para o estúdio e deixava a comida esfriar sobre a mesa; Maya, quando chegava do trabalho, fazia o seu e ia para a sala assistir ao jornal e à novela. Antes de se deitar, vinha visitá-lo. Ao ouvir os seus passos, Samuel deixava de lado o romance que estava lendo e começava a digitar frases, como se estivesse escrevendo o livro. Ela pousava as mãos nos ombros dele e olhava a tela azulada do computador. "Não trabalhe demais" — e, após alguns minutos, ia para a cama. Era o único momento em que ela o procurava, e ele passara a dominar aquilo com a precisão fria de um ritual. Sentia que era algo que ela se esforçava por fazer.
Ele olhava as paredes do estúdio — que havia decorado para o quarto do bebê — e lembrava: num canto ficaria o berço, uma cômoda trocadora e uma poltrona para que Maya amamentasse o recém-nascido. Samuel desmontou tudo antes dela voltar do hospital. Por isso, o quarto não o incomodava tanto quanto aborrecia Maya. Instalou ali o seu escritório porque o acalmava — e também porque era o único lugar da casa que ela evitava.
Samuel voltou à cozinha e começou a procurar nas gavetas uma vela, no meio de tesouras, batedores de ovos, espátulas que haviam comprado quando Maya ainda cozinhava. Encontrou uma lanterna sem pilha, ao lado de uma caixa de velas de aniversário pela metade. Ela havia realizado uma festa surpresa no seu último aniversário. Umas trinta pessoas se acotovelavam na casa. Maya estava no terceiro mês de gravidez e bebia vinho num copo americano de vidro. Havia feito o bolo de morango que ele tanto adorava, e passaram a noite inteira com os dedos entrelaçados, circulando entre os convidados.
Desde que perderam a criança, a única visita havia sido a mãe de Maya, que ficou dois meses com eles depois que ela saiu do hospital. Fazia as refeições, ia ao supermercado, lavava as roupas, guardava nos armários e deixava a casa asseada. Nunca falava com ele sobre Maya; uma vez, quando ele mencionou a morte do bebê, ela parou de tricotar, ergueu os olhos e disse:
— Mas você nem estava lá.
Ele achou estranho não haver velas nas gavetas da cozinha nem na despensa; como não estavam preparados para uma falta de energia? Procurou algo para fixar as velas que restaram do aniversário e escolheu um pires das xícaras de café. Enquanto arrumava a mesa, lembrou da primeira refeição que fizeram ali: o quanto estavam felizes, como um procurava o outro e viviam como um casal apaixonado — por qualquer motivo bobo, mais dispostos a fazer amor do que a comer. Estendeu a toalha de mesa branca com renda nas bordas, presente de casamento, pôs os pratos, as taças de vinho e acendeu as duas velinhas no pires e outras que estavam espalhadas para clarear a cozinha. Aproveitou o pouco de bateria que restava no celular e deu o play na música de jazz que ela havia montado naquele tempo em que ainda montavam listas juntos.
— O que é isso? — Maya perguntou, parada na porta da cozinha. Estava com o cabelo molhado, enrolado em uma toalha branca como uma touca. Desenrolou-a e pendurou-a no encosto de uma cadeira, deixando o cabelo preto e brilhoso cair pelas costas. Vestia um moletom azul-claro, camiseta e um roupão de flanela. Barriga lisa, cintura fina e o nó do roupão frouxo. Eram quase nove horas. Samuel pôs a travessa de ravióli na mesa. Maya observava e, depois da mesa posta, sentaram-se para jantar.
— Está pronto — anunciou Samuel.
— Tudo perfeito — disse Maya.
— Só encontrei essas velinhas de aniversário — ele completou, ao acendê-las.
— Não tem importância — disse ela, antes de beber um pouco de vinho. — Está lindo.
Samuel estava tão acostumado com os modos de Maya que, no escuro daquela noite, como em tantas outras refeições, sabia como ela se sentava: um pouco para frente da cadeira, os tornozelos cruzados abaixo dela e o cotovelo apoiado na mesa. Foi procurando velas que Samuel encontrou uma garrafa de vinho na despensa; com cuidado, usou o saca-rolhas. Com cuidado, verteu o vinho. Serviram-se.
— Como está a massa? — ele perguntou.
— Está uma delícia — disse Maya, batendo com o garfo no prato. — Muito bom mesmo.
Não era assim antes. Quando Maya chegava do trabalho, fazia questão de ajudar a preparar o jantar. Pegava o caderno de receitas, vestia o avental, colocava sobre a mesa todos os condimentos de que precisavam e preparavam o jantar juntos. Ela contava o seu dia na empresa, as notícias e as novidades no trabalho. Agora, ele tinha que fazer tudo sozinho. Na refeição, fazia um esforço para dizer algo que a interessasse, algo que a fizesse erguer os olhos do prato; queria contar uma piada, mas não havia clima para isso; pensar nas notícias do dia — ela não gostava que se falasse de política durante as refeições. Tinha muita vontade de falar da gravidez, do bebê, de tudo que havia acontecido, mas Maya se recusava a tocar nesse assunto.
Ela empurrou o prato e pôs as mãos abertas sobre a mesa.
— Quero que você veja o meu rosto quando eu te disser o que tenho a falar — disse Maya.
O coração de Samuel bateu forte. Lembrou que no dia em que ela disse que estava grávida havia usado as mesmas palavras e os mesmos gestos, a mesma voz suave, depois de desligar a música no rádio. Na época, ele não estava preocupado. Agora estava tenso. O que ela queria dizer?
— Andei procurando um apartamento perto do trabalho e de uma academia — disse ela.
A culpa não era de ninguém, ela continuou. Tinham passado por muita coisa. Ela precisava do seu espaço. Refletir sobre a própria vida. Estava cansada de perder todos os dias quase quatro horas para ir e voltar do trabalho. Gostava da casa — herança da mãe de Samuel —, mas não a sentia sua. Havia ido morar com ele, na casa dele, não num lugar que tivessem planejado e escolhido juntos. Vivemos bons anos, mas depois de tudo que aconteceu, precisamos os dois repensarmos cada um a sua vida e o que desejamos fazer daqui para frente.
Samuel se levantou, pôs o seu prato em cima do dela e os levou até a pia. Em vez de lavá-los, ficou olhando pela janela. Lá fora, a chuva caía, e ele se perdia em pensamentos como a água que se perde no ralo — sem direção, sem destino. Maya apagou as velas. Samuel voltou para a mesa e sentou-se ao lado dela. E os dois choraram juntos no escuro, enquanto o jazz ainda soava baixinho no celular sem bateria, por mais alguns instantes.



Em um relacionamento, o silêncio e as ausências não são bons conselheiros.
Muito bom o texto!
Obrigado por compartilhar